A Justiça na Praça: Quando o Sistema de Justiça encontra o povo
Em um tempo em que se cobra do
Poder Judiciário não apenas produtividade, mas capacidade real de transformação
social, duas experiências recentes no Maranhão demonstram que há caminhos
institucionais capazes de aproximar a Justiça da vida concreta das pessoas. A
Praça de Justiça e Cidadania, realizada em Caxias/MA, e a Semana da Paixão,
promovida em Alcântara/MA, não foram apenas eventos de prestação de serviços.
Foram manifestações de um modelo de Justiça que deixa os gabinetes, ocupa o
território, reconstrói vínculos sociais e enfrenta conflitos que o processo
convencional, sozinho, não consegue resolver.
Sob a liderança do Ministro
Carlos Augusto Pires Brandão e do Desembargador Federal Roberto de Carvalho
Veloso, essas iniciativas revelam uma visão contemporânea do sistema de
justiça: menos centrada na lógica isolada da petição, contestação e sentença, e
mais comprometida com redes colaborativas, soluções estruturais e presença
institucional qualificada. Trata-se de compreender que há conflitos que não
cabem em planilhas nem se resolvem apenas com decisões formais, porque atingem
comunidades inteiras, tradições, territórios e modos de vida.
Foi isso que se viu em Caxias,
entre os dias 9 e 13 de março, quando a Praça de Justiça e Cidadania mobilizou
Justiça Federal, Justiça Estadual, Ministério Público, Defensorias, Prefeitura
e diversos órgãos estaduais e federais em torno de um objetivo comum: aproximar
a população dos serviços da Justiça e de outros órgãos públicos. O resultado
foi expressivo. Mais de 10 mil atendimentos foram realizados em áreas como
saúde, documentação, orientação jurídica, assistência social, regularização
fundiária e conciliação. Houve 300 audiências promovidas pela Justiça Federal,
400 atendimentos da Justiça Eleitoral, 150 pela Justiça do Trabalho, 1.800 pela
Defensoria Pública, além de milhares de atendimentos prestados por secretarias
municipais e instituições parceiras. Esses dados constam do material
encaminhado pelo usuário e também dialogam com a perspectiva exposta no texto
anexo.
Mas o que dá densidade
institucional à experiência de Caxias não é apenas a dimensão numérica. O que
distingue a Praça de Justiça e Cidadania de um simples mutirão é justamente sua
capacidade de articular, ao lado dos atendimentos individuais, respostas a
questões coletivas e estruturais. O texto anexo destaca, com precisão, a
realização de audiência pública sobre a duplicação da BR-316 no trecho
Caxias-Timon, com participação do DNIT e impactos sobre vinte municípios do
leste maranhense, revelando que a Praça não se limitou ao balcão de serviços,
mas se abriu também ao debate público de temas sensíveis para toda a região.
Nesse contexto, merece
especial relevo a atuação do Juiz Federal Luiz Régis Bomfim Filho, cuja
organização foi decisiva para o êxito da iniciativa em Caxias. Coube-lhe
articular atendimentos, alinhar instituições, coordenar a logística e assegurar
o funcionamento integrado dos diversos eixos do evento. O êxito da Praça também
contou com a colaboração do advogado Washington Leite Torres, que auxiliou na
coordenação dos trabalhos e contribuiu para a formação dessa ampla rede
institucional. Em experiências dessa natureza, o resultado não decorre do
acaso, mas de liderança concreta, planejamento rigoroso e capacidade de
diálogo.
Se Caxias mostrou a força da
Justiça como presença pública e solução concreta de demandas sociais, Alcântara
projetou esse modelo para uma dimensão ainda mais profunda. A Semana da Paixão,
realizada entre 23 e 27 de março, no âmbito do Projeto Viva Alcântara –
Desenvolvimento Sustentável, reuniu cidadania, fé, cultura, escuta comunitária
e desenvolvimento social em um território historicamente marcado por disputas
fundiárias, memória coletiva e resistência quilombola. Mais do que uma
programação religiosa e cultural, o evento assumiu o significado de uma ação
institucional de reparação, pacificação e reconstrução de vínculos.
O texto anexo acrescenta um
dado central para a compreensão dessa experiência: em novembro de 2024, a Corte
Interamericana de Direitos Humanos proferiu sentença no caso das Comunidades
Quilombolas de Alcântara vs. Brasil, responsabilizando o Estado brasileiro por
violações que comprometeram o projeto de vida coletivo de numerosas comunidades
quilombolas. Nesse cenário, a Semana da Paixão não foi apenas simbólica. Ela se
inseriu como parte de um esforço concreto de cumprimento da sentença
internacional, por meio de escutas, articulação institucional, regularização
documental, promoção de direitos e fortalecimento da legitimidade das
instituições junto às comunidades afetadas.
Em Alcântara, portanto, a
Justiça foi além da conciliação tradicional. Tornou-se mediadora social de um
conflito estrutural, ligando o universo jurídico ao território, à cultura e à
dignidade coletiva. A procissão pelas ruas históricas, a missa na Igreja do
Carmo, a participação das caixeiras do divino e as referências à Festa do
Divino Espírito Santo não foram elementos periféricos. Foram expressões vivas
da identidade cultural de um povo, demonstrando que, naquela realidade, direito
territorial, memória, religiosidade e pertencimento não podem ser separados.
Nesse quadro, sobressai a
atuação do Juiz Federal Hugo Abas Frazão, cuja organização da Semana da Paixão
em Alcântara evidenciou que projetos dessa magnitude exigem não só domínio
jurídico, mas sensibilidade territorial, capacidade de articulação e leitura
humana dos conflitos. Também nessa iniciativa houve a colaboração do advogado
Washington Leite Torres, que ajudou a coordenar os trabalhos e a integrar os
diversos atores institucionais envolvidos. A presença da AJUFER, de magistrados
federais e estaduais, de representantes do sistema de justiça e de autoridades
públicas reforçou o caráter plural e cooperativo da ação.
O ponto de unidade entre
Caxias e Alcântara está justamente aí. Ambas as experiências revelam que o
sistema de justiça pode assumir papel mais amplo do que o de mero solucionador
tardio de litígios individuais. Pode funcionar como rede colaborativa de escuta,
presença, mediação e reconstrução social. Essa visão, ressaltada no texto
anexo, parte da compreensão de que o sujeito de direito não é uma abstração
isolada, mas alguém inserido em relações familiares, sociais, econômicas,
culturais e institucionais. Quando essas relações se rompem, a exclusão não é
apenas jurídica: é humana, comunitária e histórica.
É por isso que Praças de
Justiça e Cidadania, Semanas temáticas e outras formas de atuação territorial
têm relevância crescente. Elas materializam, no território, aquilo que metas e
indicadores nem sempre conseguem expressar: presença estatal efetiva, cuidado
com a saúde das relações sociais e solução concreta de conflitos complexos. O
que o anexo chama de “redes colaborativas do sistema de justiça” traduz
exatamente isso: uma forma de atuação em que Judiciário, Ministério Público,
Defensorias, entes federativos e sociedade civil deixam de agir de modo
fragmentado e passam a construir respostas conjuntas.
Caxias e Alcântara, cada qual
a seu modo, demonstram que esse caminho é viável, necessário e replicável. Em
Caxias, a Justiça encontrou a população no espaço público e mostrou eficiência
administrativa, capilaridade social e impacto regional. Em Alcântara, a Justiça
se aproximou da cultura, da fé, da memória e da luta quilombola, reafirmando
que a legitimidade institucional também se constrói pelo respeito à história e
à identidade das comunidades.
Essas experiências, conduzidas
sob a liderança do Ministro Carlos Brandão e do Desembargador Federal Roberto
Veloso, com participação destacada dos Juízes Federais Luiz Régis Bomfim Filho
e Hugo Abas Frazão, além da colaboração do advogado Washington Leite Torres,
merecem não apenas elogio, mas reflexão. Elas apontam para uma Justiça que não
renuncia à técnica, mas a coloca a serviço da vida concreta. Uma Justiça que
não abandona a decisão, mas compreende que decidir, muitas vezes, também é
escutar, articular, mediar e reconstruir.
O modelo já se expande. Em
abril, São Miguel do Guamá, no Pará, receberá nova edição da Praça, com apoio
da Coordenadoria dos Juizados Especiais Federais do TRF da 1ª Região. Ali, a
Juíza Federal Priscila Garrastazu Xavier lida com conflitos envolvendo direitos
de indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Entre 12 e 15 de maio, será a vez de
Porto Calvo, berço de Calabar, em Alagoas, onde o Ministro Brandão já realizou
visita técnica preparatória.
Maranhão, Pará, Alagoas. A
rede se espraia e já se projeta como política judiciária nacional. Quando a
Justiça vai à praça, ela não apenas amplia o acesso a serviços. Ela reafirma
sua vocação mais alta: a de ser instrumento de cidadania, dignidade e
pacificação social.
Comentários
Postar um comentário