Saúde mental: um desafio mundial que também exige atenção no Brasil e no Maranhão
Falar de saúde mental deixou de ser apenas uma questão individual para se tornar uma importante questão de saúde pública. Ansiedade, depressão, estresse, transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas e outros problemas de saúde mental podem afetar pessoas de todas as idades e condições sociais. E os números mostram a dimensão do desafio.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1,1 bilhão de pessoas — quase uma em cada sete no mundo — viviam com algum transtorno mental em 2021. Os transtornos de ansiedade e os transtornos depressivos estavam entre os mais comuns. A OMS também aponta que os transtornos mentais representam uma parcela significativa dos anos vividos com incapacidade e que muitas pessoas ainda não conseguem ter acesso a um tratamento adequado.
Os impactos vão muito além dos sintomas. A saúde mental interfere nos relacionamentos, nos estudos, no trabalho, na capacidade de tomar decisões e na qualidade de vida. A OMS estima ainda que pessoas com transtornos mentais graves podem morrer 10 a 20 anos mais cedo que a população em geral.
Brasil: ansiedade, depressão e sofrimento no cotidiano
No Brasil, os indicadores também chamam atenção. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 apontaram que 10,2% dos brasileiros com 18 anos ou mais haviam recebido diagnóstico de depressão. Documento do Conselho Nacional de Saúde também cita estimativa de aproximadamente 9,3% da população brasileira com ansiedade patológica.
O Ministério da Saúde informa que a prevalência de depressão ao longo da vida no Brasil está em torno de 15,5%. A doença pode ser recorrente e, quando não tratada adequadamente, pode provocar grande sofrimento e prejuízos na vida pessoal e profissional.
Outro indicador importante é o impacto no mundo do trabalho. Segundo dados citados pelo Conselho Nacional de Saúde, somente em 2020 foram registrados aproximadamente 289,7 mil afastamentos relacionados a transtornos mentais pelo INSS.
Esses números ajudam a mostrar que cuidar da mente não significa apenas tratar doenças. Significa também criar condições para que as pessoas possam viver, trabalhar, estudar, estabelecer vínculos e enfrentar dificuldades de maneira mais saudável.
Maranhão: uma rede que precisa ser conhecida e fortalecida
No Maranhão, os dados oficiais também revelam a dimensão do problema. Em janeiro de 2024, a Secretaria de Estado da Saúde informou que 13.538 pacientes estavam em atendimento no Estado por transtornos de ansiedade e depressão e que 417 suicídios haviam sido notificados no ano anterior, segundo os dados apresentados pela própria SES.
os números de 13.538 pacientes e 417 suicídios no Maranhão são dados divulgados pela SES-MA em janeiro de 2024, portanto não devem ser considerados como se fossem números atuais de 2026. Já os 89 CAPS são dados do Ministério da Saúde referentes a dezembro de 2024.
Naquele levantamento estadual, a SES informou a existência de 96 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), distribuídos em 81 municípios maranhenses, considerando as modalidades existentes na rede naquele momento.
Já os dados consolidados pelo Ministério da Saúde para dezembro de 2024 registravam 89 CAPS no Maranhão, sendo 57 CAPS I, 17 CAPS II, 4 CAPS III, 4 CAPSi e 7 CAPS AD. A cobertura registrada era de 0,89 CAPS por 100 mil habitantes. A diferença entre os números decorre das bases, critérios e momentos de atualização utilizados pelos órgãos.
O dado mais importante, porém, é que existe uma estrutura pública à qual a população pode recorrer. Os CAPS fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do SUS e oferecem acolhimento, acompanhamento multiprofissional, atendimento individual e em grupo, atividades terapêuticas e apoio às famílias.
Quando é hora de procurar ajuda?
Uma das maiores barreiras para o cuidado em saúde mental é esperar que o sofrimento fique insuportável para somente então procurar atendimento.
Não é necessário chegar a uma crise para pedir ajuda.
É recomendável buscar orientação profissional quando sentimentos ou comportamentos começam a persistir e interferir na vida cotidiana. Alguns sinais de atenção são:
tristeza ou ansiedade intensas e persistentes;
perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer;
isolamento social;
alterações importantes no sono ou no apetite;
dificuldade persistente de concentração;
irritabilidade ou mudanças significativas de comportamento;
sensação de incapacidade, desesperança ou inutilidade;
uso crescente de álcool ou outras drogas para tentar lidar com problemas;
queda importante no desempenho escolar ou profissional;
sofrimento que começa a prejudicar relacionamentos e atividades do dia a dia.
Não significa que uma pessoa com esses sinais necessariamente tenha um transtorno mental. Mas significa que seu sofrimento merece ser levado a sério e avaliado.
Boas práticas que podem ajudar
Cuidar da saúde mental envolve uma combinação de estratégias. Algumas atitudes simples podem funcionar como fatores de proteção e contribuir para o bem-estar:
1. Falar sobre o que está acontecendo
Conversar com alguém de confiança pode diminuir o isolamento. Escutar sem julgamentos também é uma forma importante de cuidado.
2. Procurar ajuda profissional
Psicólogos, psiquiatras, médicos da Atenção Básica e equipes dos CAPS podem avaliar cada situação e indicar o cuidado adequado. O Ministério da Saúde orienta que os CAPS podem ser procurados diretamente para um primeiro acolhimento; também é possível chegar por meio de UBS, hospitais e outros serviços da rede.
3. Manter vínculos sociais
Família, amigos, grupos comunitários, atividades culturais, esportivas e religiosas — quando fazem sentido para a pessoa — podem ajudar a reduzir o isolamento e fortalecer vínculos.
4. Praticar atividade física
A atividade física regular pode contribuir para o bem-estar físico e psicológico. Ela não substitui tratamento quando este é necessário, mas pode fazer parte de uma estratégia mais ampla de cuidado.
5. Cuidar do sono e da rotina
Ter horários relativamente regulares para dormir, acordar, alimentar-se e realizar atividades pode ajudar na organização da vida cotidiana.
6. Reduzir o consumo de álcool e evitar drogas
O uso de substâncias pode agravar determinados quadros de sofrimento mental e dificultar a recuperação.
7. Não interromper medicamentos por conta própria
Quando existe tratamento medicamentoso, qualquer mudança deve ser discutida com o profissional responsável.
8. Criar espaços de convivência e prevenção
Escolas, empresas, universidades, igrejas, associações, equipamentos culturais e órgãos públicos podem desenvolver ações de escuta, informação, convivência e encaminhamento para a rede de saúde.
E quando existe risco de suicídio?
Aqui a orientação muda: uma situação de risco imediato precisa ser tratada como emergência.
Falas sobre querer morrer, desaparecer ou não aguentar mais devem ser levadas a sério, especialmente quando acompanhadas de planejamento, tentativa recente, acesso a meios para se ferir, intoxicação, agitação intensa ou incapacidade de manter a própria segurança.
Nessas situações, a pessoa não deve ser deixada sozinha e é importante procurar imediatamente um serviço de emergência. O Ministério da Saúde orienta procurar SAMU 192, UPA 24 horas, pronto-socorro ou hospital em situações de urgência.
Também existe o CVV — Centro de Valorização da Vida, pelo número 188, gratuitamente, 24 horas por dia, todos os dias. O serviço oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, com atendimento sigiloso e respeitoso.
Cuidar da saúde mental é cuidar da vida
Os números mundiais, brasileiros e maranhenses mostram que o sofrimento psíquico não é um problema distante nem restrito a determinados grupos. Ele pode atingir qualquer pessoa.
Por isso, talvez uma das mensagens mais importantes seja simples: pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É uma atitude de cuidado.
Da mesma forma, oferecer ajuda não significa ter todas as respostas. Muitas vezes, significa simplesmente perceber que alguém não está bem, ouvir sem julgamentos, permanecer por perto e ajudar essa pessoa a chegar ao profissional ou serviço adequado.
A saúde mental começa também na capacidade de uma sociedade reconhecer o sofrimento antes que ele se transforme em uma emergência.
Se algo não está bem, procure ajuda. Não é preciso esperar piorar para começar a cuidar.
Fontes internacionais
-
Organização Mundial da Saúde (OMS) — Mental disorders
Principal fonte para o dado de que 1,1 bilhão de pessoas, aproximadamente uma em cada sete no mundo, viviam com algum transtorno mental em 2021, além dos dados sobre transtornos de ansiedade e depressão. -
OMS — World mental health today: latest data
Relatório mais recente da OMS sobre a situação mundial da saúde mental, baseado principalmente no Global Burden of Disease 2021. O relatório estima que 14% da população mundial — mais de 1 bilhão de pessoas — vivia com algum transtorno mental em 2021. -
OMS — Suicide worldwide in 2021: global health estimates
Fonte para os dados mundiais sobre suicídio. A OMS estima 727 mil mortes por suicídio em 2021, sendo o suicídio a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.
Fontes nacionais — Brasil
-
Ministério da Saúde — Depressão
Fonte para a informação de que a prevalência de depressão ao longo da vida no Brasil está estimada em 15,5%. -
Ministério da Saúde — Saúde Mental em Dados, 13ª edição, fevereiro de 2025
É uma das fontes mais importantes para a situação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). O levantamento apresenta dados de dezembro de 2024 e registra 3.019 CAPS no Brasil.Para o Maranhão, a mesma publicação registra:
- 57 CAPS I
- 17 CAPS II
- 4 CAPS III
- 4 CAPSi
- 7 CAPS AD
- 89 CAPS no total
- cobertura de 0,89 CAPS por 100 mil habitantes.
-
Ministério da Saúde — Rede de Atenção Psicossocial (RAPS/CAPS)
Fonte utilizada para explicar o papel dos Centros de Atenção Psicossocial e sua inserção no SUS.
Fontes específicas do Maranhão
-
Secretaria de Estado da Saúde do Maranhão (SES-MA) — Campanha Janeiro Branco, 2024
Essa é a fonte dos dados estaduais citados na matéria. A SES informou, em janeiro de 2024, que havia 13.538 pacientes em atendimento no Maranhão por transtornos de ansiedade e depressão e que 417 suicídios haviam sido notificados no ano anterior.A mesma publicação informava, naquele momento, 96 CAPS em 81 municípios maranhenses. É importante destacar que esse número é diferente dos 89 CAPS registrados pelo Ministério da Saúde em dezembro de 2024, porque se trata de momentos e bases de atualização diferentes.
Fonte de apoio para atendimento no Brasil
- Centro de Valorização da Vida (CVV) — serviço de apoio emocional pelo 188, utilizado na orientação sobre procura de ajuda em situações de sofrimento emocional e prevenção do suicídio.
Comentários
Postar um comentário